Sobre escrevivências, amores e pessoas

Eu escrevo desde criança. Colecionava diários. Escrevia sobre sonhos, desejos e amores. Eu tinha muitos amores. Escrevia cartas que nunca seriam entregues e outras que foram entregues e lidas. Para uns era um simples pedaço de papel que seria rasgado e para outros paixões de uma menina boba. Meus amores platônicos viravam enredos e livros de amor.

A mãe de uma amiga achou minhas agendas da época da escola no lixo e as guardou. Disse que aquelas lindas palavras não poderiam ser esquecidas. Ainda não tive coragem de ir buscar. Lembrei de como as colegas da escola faziam fila para ler minhas teorias da vida, sobre o amor e como eu decorava as agendas-livro.

Cresci e as palavras ainda continuam em mim. Os amores continuam em mim. Nas poesias do Afrodengo. Nos afetos construídos diariamente. No nome da minha família Ifé. Esse amor me tornou jornalista. A moça da comunicação. As palavras são meu combustível!


Há algum tempo venho entrevistando e escrevendo sobre os projetos de outras pessoas. Estética, línguas, cultura, ancestralidade, casamento, terapias e sonhos concretos. Eu escrevo sobre amores. Os amores das outras pessoas. Esses amores que construímos dentro de nós. Aqueles sonhos que a gente guarda na mala e torna nossa caminhada. Aqueles sonhos que nem sequer recordamos de como começou. A minha tarefa é mexer nessas memórias, de lembrar que antes de você ser o que é, alguém lá atrás faz parte desse ser. Pessoas que te inspiram e são mais do que artistas de tevê que você venera. São as pessoas da sua vida.

Eu trabalho com as palavras. Com a essência das pessoas. Eu trabalho com a audição, com o olhar, o olfato, os sentidos. Uma entrevista é a permissão para entrar na sua morada. Eu escrevo sobre amores. Eu fujo à técnica das palavras, eu escrevo sentires e como bem lembrou Conceição Evaristo: escrevivências.

Nenhum comentário:

Postar um comentário